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Artigo |
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09 de novembro 2004
O Diretor faz a diferença *
Lia Scholze [1]
Gostaria de iniciar com as palavras do ministro Tarso Genro que,
ao detalhar as políticas educacionais de sua gestão,
relatou os esforços que o Ministério da Educação
está empreendendo em relação à Educação
Básica. Dentre as iniciativas estão: 1) o acréscimo
de um ano no Ensino Fundamental, 2) o repasse de recursos para requalificação
profissional dos educadores da Educação Básica,
por meio de Educação a Distância e presencial;
3) a oferta de licenciatura a professores que necessitem concluir
sua formação, pois 60% desses profissionais não
terminaram o ensino superior; 4) o aperfeiçoamento de diretores
e secretários de educação através da
criação da Escola de Gestores.
Está-se falando em educação como sistema integrado
de todos os níveis e é este último item que
eu gostaria de ressaltar.
Anísio Teixeira, já em 1961, chamava a atenção
para a necessidade da preparação dos professores candidatos
a administradores escolares e falava da importância que deveria
ser dada para a administração da classe, o planejamento
dos trabalhos e a orientação do ensino na Educação
Básica, que na época se chamava Educação
Primária. Segundo ele, quanto menor fosse o preparo do professor,
maior seria o papel do administrador diante do cada vez mais complexo
papel que a escola desempenha na sociedade.
Atualmente, não se fala mais em administração
da escola e sim em gestão. Nessa perspectiva, a direção
da escola deve passar a ser um trabalho de equipe, com ampla participação
de todos os segmentos da escola e também da comunidade.
Independentemente da terminologia usada, o que importa é
a atuação do gestor.
As atuais discussões sobre gestão escolar têm
como dimensão e enfoque de atuação: a mobilização,
a organização e a articulação das condições
materiais e humanas para garantir o avanço dos processos
socioeducacionais, priorizando o conhecimento e as relações
internas e externas da escola.
A descentralização do processo decisório é
um item a ser considerado pois ele diminui a distância entre
a tomada de decisão e sua execução. Ninguém
melhor do que quem enfrenta o problema sabe a sua solução.
O objetivo final da gestão é a garantia dos meios
para a aprendizagem efetiva e significativa dos alunos. O entendimento
é de que o aluno não aprende apenas na sala de aula,
mas na escola como um todo. Faz-se necessário que a escola
seja, em seu conjunto, um espaço favorável à
aprendizagem. Que seja criando um ambiente de efervescência
de busca do conhecimento, de curiosidade em relação
ao mundo, que os professores capturem o conhecimento que circula
na sociedade e o tragam para dentro da escola, interagindo com a
sociedade e recuperando o papel da escola na formação
holística do aluno.
Um importante elemento a ser considerado são as novas demandas
que a sociedade atual traz para o gestor. O conhecimento também
se adquire fora da escola e, dentre as pedagogias vigentes, é
preciso dar a importância devida às influências
da mídia sobre os jovens e os professores. Segundo dados
encontrados no livro “O perfil dos professores brasileiros”,
lançado recentemente, 74,3% vêem TV diariamente e apenas
40% lêem jornal, e, ainda, 59,6% nunca usam o correio eletrônico.
São demandadas mudanças urgentes na escola para responder
às exigências contemporâneas e à influência
dos meios de comunicação.
Gostaria de discutir com os senhores duas questões que fazem
parte de nossas preocupações na implantação
do projeto Escola de Gestores:
1) o conceito de gestão numa perspectiva não gerencial,
e sim de gestão democrática;
2) a participação do diretor da escola como parceiro
no projeto de nação que está sendo construído,
no qual a escola tem um papel fundamental, e a necessidade de o
diretor assumir cada vez mais a função de líder
comunitário.
O gestor escolar deve estabelecer uma relação dialógica
com o gestor municipal na figura do Secretário Municipal
de Educação e sua equipe, com o corpo docente e discente
de sua escola, com os funcionários e também com os
pais dos alunos. A família deve ser vista como o maior interessado
no sucesso das crianças.
Nessa perspectiva, o modelo de escola deixa de ser estático
para assumir um paradigma dinâmico, descentralizado e democrático.
A experiência vivida nesse tipo de escola pode permitir ao
aluno passar a ser um cidadão participativo da sociedade,
uma vez que o conhecimento construído na troca e na participação
constitui-se em grande valor estratégico para o desenvolvimento
da sociedade e condição importante na qualidade de
vida das pessoas. Para que isso se efetive faz-se necessário
que a escola cumpra seu papel primeiro, que é o de desenvolver
no aluno as competências básicas de letramento e domínio
matemático, sem o qual ele será sempre e cada vez
mais excluído da sociedade.
Deve-se também atentar para os ex-alunos, egressos da escola,
que não têm na sua comunidade outros espaços
para continuar a desenvolver suas capacidades. A escola pode recuperar
seu papel de referência abrindo suas portas para estes jovens
e para a comunidade.
Um diretor comprometido, parceiro da construção das
políticas de sua Secretaria e do MEC, poderá ajudar
a escola a cumprir sua vocação. Poderá ajudar
a definir os rumos necessários para reverter os quadros dramáticos
apresentados pelo Censo Escolar e pelo SAEB. Não basta o
acesso e a permanência, é preciso que o aluno aprenda.
Há que se criar, através da gestão democrática
e compartilhada, as condições para a viabilização
desta missão.
O diretor pode assumir a condição de líder
desse movimento, considerando o caráter de pluralidade cultural
da escola pública, administrando a controvérsia que
se manifesta na escola, estabelecendo uma rede de relações
entre os alunos, professores, funcionários, pais e comunidade
do entorno da escola. Cada um deles passa a ser visto não
como “tarefeiro” e sim como agente de gestação
do projeto da escola que determine para si os indicadores de qualidade
que deseja obter, construindo uma identidade própria para
sua unidade escolar.
A participação da comunidade como co-gestora, através
dos conselhos escolares e da comunidade escolar na construção
do projeto político-pedagógico, no gerenciamento financeiro
dos recursos da escola, na definição das relações
que a escola tem com seus alunos e com a própria comunidade,
como bem público e a serviço desse mesmo público,
é fundamental, passando a centro dinamizador da comunidade.
O termo público deve ser tomado no sentido republicano, no
qual a sociedade tome conta da escola e diga o que espera dela.
A construção de uma matriz de competência não
servirá para estabelecer um ranking entre as escolas, e sim
ser norteadora de um ideal a ser perseguido e atingido. As competências
necessárias para atingir este ideal serão construídas
com a participação ativa do MEC, que definiu para
si os pontos necessários para a qualificação
do Ensino Básico no País. Entre eles está a
Escola de Gestores a ser lançada através de um Programa
de Formação Continuada de Diretores da Educação
Básica, que terá sua primeira ação entre
26 e 28 de outubro como um projeto piloto, quando serão convidados
representantes dos diferentes Estados da Federação
para nos ajudar a compor o programa do curso a ser iniciado em janeiro
de 2005, em parceria com as Secretaria de Educação
dos Estados e Municípios. Não se está desconhecendo
as iniciativas já existentes nesta área; ao contrário,
queremos aproveitar as experiências exitosas para torná-las
públicas e exemplares a todos os Estados e Municípios.
Não estamos querendo inventar a roda, e sim potencializar
o que já existe. Acredita-se que as boas experiências
devem merecer visibilidade. A troca dessas experiências e
o conhecimento das soluções que foram dadas por alguns
podem ajudar outros gestores a encontrar suas próprias soluções.
O que se quer é potencializar o que está dando certo
e permitir que outros aproveitem essas experiências para suas
próprias realidades.
Dentre os exemplos que podem ser citados está o município
de Sobral, no Ceará, que reverteu os índices de analfabetismo
que chegavam a mais de 40%, passando hoje a um total de apenas 812
crianças num universo de 18 mil alunos, sem a competência
da leitura. A taxa de escolarização atinge mais de
100%, pois o município atende também crianças
oriundas de 8 municípios vizinhos, atraídas pelos
seus resultados. Uma das primeiras medidas implantadas foi a substituição
de 90% dos diretores de escola, através de um processo de
seleção, e a contratação de um compromisso
destes novos diretores através do estabelecimentos de metas
a serem atingidas, avaliação permanente e apresentação
de resultados. Outra medida adotada foi a premiação
daqueles que obtinham bons índices de evolução.
A educação deve ser vista como um direito. O aluno
precisa aprender, esse é o nosso compromisso. O diretor é
uma peça fundamental desse projeto. E ele precisa definir
com seus pares as metas que deseja atingir, estabelecer um contrato
com os professores, e dos professores com seus alunos e com a comunidade.
E, de acordo com os resultados obtidos, devem ser reconhecidos e
recompensados para serem estimulados a buscar novas metas.
Acredito que assim será inaugurado um tempo mais profícuo
para a educação brasileira.
Bibliografia
O perfil dos professores brasileiros: o que fazem, o que pensam,
o que almejam. Pesquisa Nacional Unesco, São Paulo: Moderna,
2004.
[1] Coordenadora do Projeto Escola de Gestores.
Assessora de Relações Institucionais INEP/MEC. Doutoranda
em Educação/UFRGS.
* Artigo apresentado na Reunião da União
Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME)
em 09/06/2004 |